AVISO

Dia 1 de Setembro, o Senhor Palomar muda-se de livros e bagagens para http://senhorpalomar.com/

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Hélder Beja e a identidade deste Senhor Palomar

«...o senhor Palomar é um tipo que vive junto à praia, provavelmente numa bela vivenda com vista mar; e que, tendo a airosa pátria 1230 quilómetros de costa, ficamos na mesma e não lhe podemos fazer uma espera ao entardecer.

Aproveito, senhor Palomar, para deixar um apelo: não faça do seu blogue coisa demasiado séria. Anda tudo muito sério por estes dias, não se deixe levar.
»

Meu caro Hélder Beja,
o Senhor Palomar deixa claro que este nunca será um espaço demasiado sério. Os livros devem ser levados com leveza, mesmo que sejam profundos. Muito a sério, mesmo que sejam de brincar. É essa, e será sempre essa, a postura deste blogue.

Aceite um abraço amigo do
Palomar.

Poesia de andaime

«Tão bom na areia, tão mau na tábua». Comentário de locutor da RTP2, cobrindo (passe-se a expressão) as provas de triplo salto, nos mundiais de atletismo. Alguns segundos depois, o mesmo locutor ainda acrescenta, a propósito de outro salto: «esticou bem». Para continuar a ouvir o sarau de poesia, é favor ligarem-se, agora mesmo, àquele canal.

Este é um daqueles livros que já sabemos que não vamos gostar

«Queixas em livros de reclamações podem ser consultadas online»

Talvez isto seja mais rápido do que ler Stieg Larsson

«Bolt atingiu pico de 44,72 km/h na final de Berlim»

O “Super-Homem” poderá perder as referências a Krypton. E já agora não voar

Ler no Público.

Da identidade do Senhor Palomar ou como a silly season é uma coisa meio tramada. Sobretudo na era da internet. Por Manuel Anastácio

«Para podermos dedicar-nos a fundo nas leituras espessas a de que a superfície dos dias de trabalho nos afasta, é preciso que nada de importante se passe. Por isso, discute-se a identidade do Senhor Palomar e a relevância do ponto de exclamação, que me faz lembrar o suposto bilhete de Oscar Wilde ao seu editor a respeito de um manuscrito ("?") e a resposta do editor ("!").» Ler na íntegra no Condição Humana, de Manuel Anastácio.

O Senhor Palomar sugere que, no lugar de se discutir a identidade do Senhor Palomar, se leia, ou releia, o próprio Palomar, de Italo Calvino (Teorema), agora com nova capa. Um livro notável, já se sabe e sobre o óbvio nem vale a pena falar.

PS: Se algum leitor fizer o favor de enviar um jpeg com a nova capa de Palomar, terá a gratidão infinita do Senhor Palomar.

Mafalda com estátua no centro de Buenos Aires

Ler no JN.

Para quando uma iniciativa similar com uma personagem da nossa literatura? E se sim, qual?

Conto de José Saramago, "Embargo", adaptado a cinema

Ler no DN. Realização de António Ferreira.

Olho por olho, dente por dente

José Saramago sobre D. Duarte: «O rei assim é o sr. D. Duarte de Bragança, pessoa medianamente instruída graças aos preceptores que lhe puseram logo à nascença, mas que, não obstante, detesta a literatura em geral e o que escrevo em particular, primeiramente porque considera que no Memorial do Convento lhe insultei a família e em segundo lugar porque a dita obra é, de acordo com o seu requintado linguajar de pretendente ao trono, uma “grande merda”. Não leu o livro, mas é evidente que o cheirou. Compreende-se, portanto, que, durante todos estes anos, eu não tenha incluído o sr. D. Duarte, de Bragança, note-se, na escolhida lista dos meus amigos políticos. Não me importo de levar uma bofetada de vez em quando, mas a virtude cristã de oferecer ao agressor a outra face é virtude que não cultivo. Tenho-me desforrado apreciando devidamente as qualidades de humorista involuntário que este neto do senhor D. João V manifesta sempre que tem de abrir a boca. Devo-lhe algumas das mais saborosas gargalhadas da minha vida.» Ler aqui.

De Updike para Updike

Ler aqui o texto que o filho de Updike escreveu acerca do seu pai, John. [Via Bibliotecário de Babel]

"Os Cadernos de Pickwick", de Dickens na colecção de humor coordenada por Ricardo de Araújo Pereira para a Tinta-da-China

A trilogia Millennium é a leitura-sensação em Espanha

Ler no ABC.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A visão do amor, por Doisneau, ou uma forma desesperada de enviar um beijo a quem assim se deseja


Não são muitos os escritores capazes de retratar assim o amor. O nome de Vergílio Ferreira vem de imediato à cabeça do Senhor Palomar, mas depois lembra-se que a ser este um quadro de Vergílio, seria a mulher quem tomaria a iniciativa e não o homem. A menos que o genial Vergílio Ferreira arranjasse maneira de nos enganar, dizendo que fora a mulher quem permitira tal beijo, não o homem quem tomara a iniciativa. A todos aqueles que tenham dúvidas sobre as afirmações acima, leiam o "Em nome da Terra" e depois falamos.


Ver a história da fotografia no Lavorare Stanca.

No dia em que passam 123 anos sobre a sua morte, evocar Cesário é preciso

Por Teresa Sá Couto. No Orgia Literária.

Miguel Sousa Tavares: "No teu deserto" publicado no Brasil, pela Companhia das Letras

Ler aqui.

Anne Frank no cinema

Com alguns dias de atraso, a notícia no Público que dá conta da adaptação do diário de Anne Frank ao cinema.

Bruno Vieira Amaral, do Cachimbo de Magritte, comenta os pontos de exclamação

«Não tenho nada contra o ponto de exclamação. Nem a favor. Se algum passar por mim na rua, cumprimento-o. Se me pedir um cigarro, não dou. Mas sou assim com toda a gente e não abro excepções a sinais de pontuação. O movimento contra o ponto de exclamação, iniciado aqui, confundiu-me. Um movimento que se propõe acabar com alguma coisa parece-me de natureza imperativa. Não se sugere o uso moderado do ponto de exclamação, mas o seu extermínio, porque fere a sensibilidade, porque grita, porque é próprio de pessoas sem maneiras, porque é histérico. Grita-se, baixinho, contra o ponto de exclamação: eis o paradoxo!» Belíssimo texto.

William Golding tentou violar uma jovem de 15 anos

É a notícia que enche as secções culturais internacionais: William Golding, então com 18 anos, terá tentado violar uma jovem de 15. A revelação parte do próprio em «Men, Women & Now» (texto autobiografico inédito). Ler no The Guardian, no Books Blog (The Guardian), no The Independent, no ABC.

Toni Morrison: «O racismo não desapareceu»

Ler entrevista à Nobel na Revista Ñ.

«Bom! Bonito! Barato!» - uma crónica de Rui Tavares dedicada aos pontos de exclamação

O Senhor Palomar, com a devida vénia a Rui Tavares (que autorizou a publicação da crónica), deixa aqui o texto publicado pelo historiador no jornal Público de hoje. O Senhor Palomar agradece a Shyz Nogud as diligências para conseguir esta crónica.

«Há uns anos, a revista The Economist decidiu publicar um texto só com palavras curtas, porque Winston Churchill tinha dito uma vez que as palavras curtas eram as melhores. O autor ou autores, anónimos como sempre naquela revista, pareciam orgulhosos pelo seu feito, e convencidos de que tinham produzido um escrito pragmático, sucinto, preto-no-branco, claro, concreto e totalmente isento de toda a conversa fiada.

Estavam errados. O texto era ilegível, o que até a mim surpreendeu. Aquela sucessão de palavras estreitas, na matraqueação das suas quase sempre duas sílabas, era o equivalente literário do ruído da electricidade estática e fazia da folha impressa uma paisagem de cagadelas de mosca. Sem palavras compridas, difíceis ou rebuscadas, não havia nada a que o cérebro se pudesse agarrar, nada que o intrigasse ou o forçasse a perder tempo, nada que segurasse a sua atenção. O texto declaradamente mais objectivo e anti-elitista era na verdade o mais arrogante e pseudo-intelectual dos manifestos. Assim é; e assim é também com a ideia equivocada, dominante no jornalismo literário, de que um bom texto deve ser feito de frases curtas.

O texto escrito precisa de palavras curtas e palavras compridas, precisa de frases breves e de frases longas, precisa de linguagem concreta e de linguagem metafórica. O texto precisa de ritmo e esse ritmo só se consegue pela utilização de elementos diferenciados; mas o ritmo de um texto literário não é como um ritmo musical — ele não obedece sempre ao mesmo tempo, não cai em compassos, não é metronímico — e tem de ir sendo calibrado à mão em cada parágrafo, uns mais lentos, outros mais rápidos, outros que se desdobram em subordinadas. E também: frases sem verbos. O ritmo do texto não é tão regular nem sincopado como o da peça musical porque a sua busca é a da fluência. Fluência como a das melodias não musicais nas suas modulações sucessivas — como nos cursos de água, na brisa e no vento, nas chuvadas.

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A doutrina que defende as palavras e as frases curtas é a mesma que nos diz tantas vezes: não uses adjectivos. E acrescenta: não há nada que tenhas para dizer que não possa ser dito com verbos e substantivos. Vamos supor que fosse verdade (não é). Por que raio serem supérfluos os adjectivos nos deveria privar do uso deles? Por franciscanismo literário? Não pode ser. São Francisco de Assis era um exímio utilizador de adjectivos; as mais contemplativas das palavras, nascidas de uma espécie humana amadurecida que se libertou da pura acção e aprendeu a observar as qualidades das coisas. Será então por calvinismo literário.

O último objectivo do calvinismo literário é acabar com os pontos de exclamação. Que são desnecessários (mais uma vez) e ferem a vista e são apanágio de maus escritores. Mesmo que tudo fosse verdade seria errado. Sim, os maus escritores abusam dos pontos de exclamação; mas querer proibi-los pode fazer de nós escritores medíocres.

Eu também sonho às vezes com uma escrita que fosse só palavras, sem convenções gráficas. Mas a escrita é toda ela convenção; e logo vejo que há sinais gráficos a menos e não a mais. Eu por mim inventaria mais quatro ou cinco: para a falsa exclamação, para a pergunta interrompida, para a dúvida afirmativa, para a frase incompleta.
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