AVISO

Dia 1 de Setembro, o Senhor Palomar muda-se de livros e bagagens para http://senhorpalomar.com/
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quinta-feira, 23 de julho de 2009

Ponto de ordem, ou desordem, com esclarecimento de identidade e finalização com agradecimento

Estimada Isabel Coutinho,

Vêm os signatários pelo presente afirmar que:
1. não somos Francisco José Viegas, embora gostássemos de o ser;
2. sim, viemos para ficar. Pelo menos até ao final do ano, mais coisa menos coisa. Ou não;
3. agradecemos, humildes, as boas-vindas.

Seus,
Palomar e Palomar.

Audiências do dia de ontem e o pânico do Senhor Palomar aos flashes das máquinas fotográficas

Mil trezentas e onze visitas.

O Senhor Palomar, que não está habituado a estar na mira de focos de luz (sempre fugiu das objectivas das máquinas fotográficas e sempre se recusou a sequer pousar em grupo), está a estranhar a atenção que lhe estão a dar. Sobretudo em Julho - mês de férias, quando o país está a banhos e as praias estão mais lotadas que o mercado da Ribeira num sábado de manhã - sítio simpático, diga-se, onde se misturam todo o tipo de linguarejos e texturas, pese embora não tão populado quanto as livrarias, feitas feiras do livro (com o devido respeito pelas livrarias), que se mudam para o litoral, expropriando escolas primárias, mercados abandonados e ginásios à espera de Setembro. É o livro a um euro, a dois euros, promoção promoçãozinha, para ocupar os tempos livres com o livro que o pai se esqueceu de levar, pois pensou que o 24 horas seria suficiente para as muitas horas que passa a ficar mais vermelho que um adepto domingueiro do clube de Carnide. Pelo meio a criança quer estender-se ao sol, põe creme protector, faz castelos de areia, chapinha na água e dá um mergulho para o qual não pediu autorização. O pai volta a pôr o creme que a água dissolveu, a mãe a desapertar a fita do biquini, pois quer um bronze digno das revistas que compra na ida para o areal. É o gelado, é a bola de Berlim, é o livro que cai à água e fica com as páginas estragadas – mas não faz mal, foi só um euro, dois euros (promoção promoçãozinha), problema é a gasolina que não pára de aumentar (quase trezentos paus) e os restaurantes que têm a cerveja que se quer fria, à temperatura ambiente. É hora de deixar a praia e arruma-se no mesmo saco o livro com os cremes, com o chapéu da criança, as fraldas sujas e o maço de tabaco vazio. Vai tudo lá para dentro, o 24 horas é despejado no caixote do lixo (azul, claro, que o verde é para o vidro, o vermelho para o plástico e o amarelo para a lata de coca-cola que entretanto a criança pediu, e não bebeu, porque o vendedor não tinha palhinha). O livro sobreviverá àquela tarde, possivelmente àquelas férias, mas chegará a casa, juntamente com as crianças e a areia que se acumulou nos tapetes do carro, sem que mais ninguém lhe dê atenção. Não irá parar ao saco azul, pois em Portugal ninguém deita livros fora (o português pode ter dezenas de livros ainda envoltos em plástico que nunca irá ler, mas deitá-los fora é que nunca), contudo, não voltará a ser reaberto. O livro morrerá na estante, ninguém mais se vai lembrar dele. Mas daqui a uns tempos, quando mudarem de casa talvez aquele casal se lembre daquele livro. Não daquele livro especificamente – mas das férias que passaram juntos. E vendo assim as coisas, no fundo, talvez aquele livro até seja mesmo importante, pois acaba por cumprir o propósito e o objectivo final de qualquer livro (pelo menos num mundo ideal): servir de música de fundo e contexto do que mais importa.

[Imagem retirada daqui.]

Copa da literatura brasileira, para quando a portuguesa?

Quem conhece o Senhor Palomar, sabe o quanto ele gosta de uma boa partida de futebol. E livros. Já livros sobre futebol, nem todos. Embora haja alguns autores, e livros, que valha a pena ler com muita atenção - casos de Javier Marías (Publicações Dom Quixote), Eduardo Galeano (Livros de Areia) ou do nosso Luis Freitas Lobo (Primebooks).

No Brasil, decidiram juntar as duas artes e formaram a copa da literatura brasileira, na qual romances se degladiam como se de uma fase final de um campeonato do mundo se tratasse. Os resultados dos jogos, e não só, podem ser vistos aqui. Na edição anterior, e à primeira vista, entre os partipantes, estiveram alguns livros já publicados em Portugal, casos de Adriana Lisboa (Quetzal), O filho eterno, de Cristóvão Tezza (Gradiva), ou O Dia Mastroianni (LeYa Caminho). Diga-se, aliás, que a final foi disputada entre estes dois últimos adversários, com Tezza a levar a melhor sobre Cuenca por uns humilhantes 11-3.

Na edição de 2009, podemos contar com outros autores que não são desconhecidos para o público português, casos de Daniel Galera, Patrícia Melo, Moacyr Scliar, ou Paulo Coelho. A propósito deste último, já há quem fale em favoritismo e jogo viciado, ao defender que este autor deveria estar na segunda liga e que apenas se mantém à tona de água por questões em nada relacionadas com futebol.

Entusiasmado, grato a Eduardo Coelho por lhe dar a conhecer esta iniciativa, o Senhor Palomar espera agora a organização de uma iniciativa do género em Portugal. Quem dá o pontapé de saída? Estes senhores é que o podiam fazer. Ou estes. Ou estes.

[Imagem retirada daqui]

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Da Literatura

O Da Literatura está na barra de ligações desde o primeiro dia. E não é por simpatia por Eduardo Pitta, que o Senhor Palomar não conhece pessoalmente. É por respeito intelectual. Mesmo discordando muitas vezes do poeta, escritor, crítico e estudioso, o Senhor Palomar sabe sempre porque razão não está de acordo. E essa é talvez a razão de este blog ser tão importante, (leia-se imprescindível), nas suas leituras diárias.

Ao perceber que Eduardo Pitta chegou a este espaço, e o incluiu na barra de endereços do Da Literatura, o Senhor Palomar só pode cometer o pecado mortal da vaidade e achar que está ai ir pelo bom caminho. E, por isso mesmo, pede desculpa mas não consegue deixar de esconder o sorriso meio recatado, meio vitorioso.

Informação ao público em geral ou uma forma encapotada de dizer a todos que ontem estiveram por aqui 1246 indivíduos

O Senhor Palomar gostaria de anunciar ao mundo que ontem recebeu 1246 visitas. O Senhor Palomar quer deixar bem claro que esta casa (virtual) é suficientemente grande para quantos amigos queiram entrar. Para espaços curtos e sufocantes, já basta a sua anterior casa (física) que não albergava sequer a área de ficção nacional completa, obrigando a que Steiner e o Bloom, alojados numa caixa de cartão debaixo da cama, se pontapeassem pelo seu espaço (o que no caso deles, e como se sabe, não é difícil).

O Senhor Palomar está a mudar-se para uma casa (física) maior, pretende que esta casa (virtual) cresça ainda mais e fica à espera de mais visitas. Venham mais cinco. Mais dez, as que vierem por bem. Para já ganhou um almoço com Francisco José Viegas. De futuro, espera ganhar mais amigos.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Carta aberta a Francisco José Viegas, com convite final em atalho de foice, ou o aproveitamento patético do Sr. Palomar de querer aparecer na foto

Meu caro Francisco José Viegas,

O Senhor Palomar é seu leitor. Desde há muito, deve confessar. Da prosa, mas também da poesia. Das crónicas, mesmo das heteronímicas; leva a sério os seus conselhos – de culinária, das cervejas, dos charutos. Habituou-se a ouvi-lo na rádio, a segui-lo na televisão, a vê-lo no Mãe D’Água, no Toscano, ou, por vezes, a altas horas, num bar ali para os lados do Príncipe Real, onde pedia o seu bife, pagava generosamente e saía bem-disposto, sempre educado (muito), tendo ainda tempo para, pelo caminho, entregar uma série de apertos de mão. A admiração, como já percebeu, é muita e em breve terá um sentido duplo. Por um lado a admiração, de respeito e afeição:
- pois alguém que em menos de um ano publica Chatwin, Leftah, Faciolince, Yates, em breve Bolaño, entre muitos outros, só pode causar esse efeito;

- alguém que tem defendido as letras num projecto como a LER, só pode ter atrás de si uma legião de fãs (leia-se: leitores gratos);

- alguém que sintetiza em meia dúzia de palavras os sentimentos profundos do que é perder um ente querido (Se me comovesse o amor como me comove / a morte dos que amei, eu viveria feliz), só pode aspirar a que se escrevam nas lápides portuguesas aqueles versos. Como se a salvação e memória perpétua do corpo que partiu, deles dependesse;

- alguém que escreveu um dos romances mais belos da língua portuguesa – e o Senhor Palomar não se refere ao premiado “Longe de Manaus” – só pode granjear bons sentimentos junto daqueles que passaram por África (e não necessariamente apenas por Lourenço Marques);

- alguém que continua a agir como pensa sem pensar como age, só pode fazer falta à cultura e à cidadania portuguesas, tão apagadas por estes dias.

***

E eis que se chega o segundo sentido da palavra admiração. Pois o texto que o Senhor Palomar alinhavou não é notável e o Senhor Palomar só pode levar a apreciação como sinal de generosidade de FJV. Aquele texto é um textículo. É uma coisa, uma coisinha amputada, à qual falta o brilho que o FJV sempre imprime aos seus textos, sendo capaz de sintetizar em meia dúzia de caracteres aquilo que a maior parte de nós levaria 3 páginas (e três horas) a escrever.

Não obstante, e mais tomado pela falta de vergonha que pela vaidade, o Senhor Palomar não pode deixar passar em claro a situação e lança-lhe um convite. Um almoço, pois claro. O meu amigo escolhe o local (para fumadores, evidentemente) e permita por favor que a factura, quando chegar, fique do lado deste seu criado.

O Senhor Palomar anda em mudanças, o Senhor Palomar tem a sua vida mais desorganizada que uma casa sem livros, pelo que pede-lhe apenas que esse evento, que ficará decerto na memória deste subscritor, ocorra para meados de Setembro ou Outubro, pois até lá o tempo escasseia – as solicitações para tomar controlo da água, da luz, do gás, do condomínio não dão espaço para falatar, quanto mais para conversar.

Com um abraço, ao seu dispor, despede-se e assina um humilde, um escravo, um nada notável,

Palomar

domingo, 19 de julho de 2009

Dos mal-entendidos, da fidelidade à mesma mulher como se o amanhã não viesse ou de como com os livros tudo é muito mais fácil

O Senhor Palomar odeia mal-entendidos, embora tenha de reconhecer que não raramente se vê em situações para as quais até pagaria para sair. O Senhor Palomar é um velho conservador (pleonasmo: tudo no conservadorismo tem de ser velho), pois ainda acha que vale a pena ser amigo do seu amigo e ser fiel à mesma mulher. Pior: corteja uma só mulher e consegue ser feliz com (ou por) isso. Jorge Amado dizia que um homem não pode possuir todas as mulheres do mundo; mas que deve tentar. A expressão faz o Senhor Palomar sorrir, mas no fundo este sabe que a mesma não faz sentido para si.

O Senhor Palomar não teve muito sexo na adolescência e talvez isso o tenha marcado mais do que gosta de admitir. Um pouco menos de leitura e um pouco mais de porqueira talvez tivessem reforçado alguns traços da personalidade que agora estão meio adormecidos. Daí este conservadorismo latente, esta omnipresente dúvida de saber o que é correcto e não é. Mas a fidelidade continua a ser-lhe importante. É um valor que lhe fala ao coração e as razões do coração o Senhor Palomar não contraria. É fiel. É fidelíssimo. Como um gato, como um cão. Como um cão com dono. E gosta de o ser, gostando de quem gosta como se o amanhã não viesse e esta noite tivesse que o dizer por escrito, para que talvez desta forma essa pessoa o creia.

Mas nos livros não e o Senhor Palomar não pode deixar de assinalar que essa é talvez uma das melhores características da prática da leitura. Na verdade, o Senhor Palomar está convencido que é a leitura que permite a muitos homens continuarem a deitar-se com mulheres feias e ainda assim achá-las belas. Noite após noite. A não as trocarem por mais ninguém. Para trocas, já bastam os livros, com os quais tudo é muito mais fácil e directo (mais fácil do que ter sexo, pelo menos). Se o livro não serve, volta para a estante que há logo outros que se acotovelam para serem escolhidos e que ainda por cima ficam gratos por os usarmos por umas horas - algo que, como se sabe, é impossível quando estamos a falar de uma mulher. Ai, ai, Se tudo na vida fosse tão fácil como escolher um bom livro.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Isabel Coutinho concorda

2666 é o acontecimento literário do ano.

Lateralmente a esta constatação, o Senhor Palomar gostaria de expressar que não alinha com o bota-baixismo de que está tudo mal, tudo mal, e que não há volta de isto dar a volta. Detesta a expressão «só neste país» ou «vê-se mesmo que é português». O Senhor Palomar não sabe o que é ser patriota, porque viu muito disparate feito ao abrigo de um valor, à partida, tão nobre. Mas está seguro que gosta de Portugal e dos portugueses, sobretudo das portuguesas. Abre o jornal e por vezes fica entristecido com algumas das coisas que vê. Mas também sabe que se algumas das coisas não fossem daquela forma, Portugal não seria Portugal. Desapareceria o napperon por cima da televisão e a unha maior no dedo mindinho. Milhares de homens de Alfama cortariam o bigode e queimariam as camisolas de cava. Miguel Sousa Tavares escreveria romances completos, o Estádio da Luz ficaria vazio e milhares de comerciantes com roulottes do courato e da imperial em copos de plástico iriam à falência, o que, em caso algum, seria bom para a economia. É certo que já não é o tempo do garrafão de cinco litros que se leva para a praia, mas o português continua a surpreender.

Diga-se, contudo, que nada do que é ser português e Portugal deprime excessivamente o Senhor Palomar. Preocupa-o por vezes, não o deprime. As coisas que o arreliam são aquelas mais prosaicas para o seu dia-a-dia que talvez passem ao lado de alguma parte da população. Como não ter um diário de referência com um suplemento literário igualmente assim classificado, dirigido por mulher inteligente, e bonita, como Isabel Coutinho. Como o Mil Folhas, portanto. Isto sim, bem mais do que ter a rua ainda pejada de cartazes das últimas eleições europeias que nenhum dos partidos veio recolher, faz o Senhor Palomar vacilar. E ficar saudoso.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Da procura infernal de casa e de como há coisas que alguns senhorios nunca conseguirão perceber

O Senhor Palomar gosta de livros. Compra livros só pelo prazer de os comprar (grandes, pequenos, com capa dura ou mole e em várias línguas). Mesmo que sejam volumes que nunca vai ler (nomeadamente os que estão em línguas que não domina minimamente, como o sueco. Coisas do IKEA de Alfragide…).

O Senhor Palomar não se importa de se ver forçado a mudar de casa por causa deles, mas gostava que houvesse subsídios ao arrendamento para quem tem demasiados livros para a casa que possui. Não gosta de entrar num espaço que está disposto a alugar e perceber que o senhorio não verá com bons olhos tanto peso a carregar-lhe o solo, ou o tecto no caso dos outros inquilinos. Por tudo isto, mas não só, depois de duas semanas à procura de uma nova casa para onde se pretende mudar e dar espaço, já se vê, aos livros, o Senhor Palomar não tem outro remédio senão decretar que só existem dois tipos de senhorios: os senhorios que gostam de livros; e os senhorios que são idiotas. Ou seja, todos aqueles que ainda não conseguiram perceber que a sua casa, alugada ao metro quadrado e apenas valorizada pela vista para o rio que fica por detrás da poeira e do prédio da frente, não é nada face aos mundos de um livro.